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DELETE.use: IMAGENS EM LATÊNCIA

 

Sem ter vivenciado a atual Era das Conexões em Rede, Michel Foucault criou a noção de heterotopias, classificando seis tipos de espaços que coexistem entre os lugares físicos e projeções mentais. Ao contrário das utopias, as heterotopias de Foucault são espaços que existem visualmente enquanto localização geográfica. Poderíamos pensar então nos endereçamentos de http como um tipo de heterotopia pós-foucaultiana? Considerando que sim, amplio esta possibilidade e passo a também considerar o espaço criado pela imagem fotográfica  que circula online como um tipo de heterotopia, uma pequena versão do espaço social, e a partir daí, me reporto às fotografias icônicas de vários autores e épocas, pensando-as como ambientes heterotópicos, passíveis de novas abordagens, novas explorações.  Fotografias como lugares corriqueiros do imaginário universal contemporâneo. 

 

Minha intenção com a série DELETE.use é pensar na imagem fotográfica como uma heterotopia e minha intervenção se dá na apropriação e edição digital de arquivos fotográficos de conhecimento público - território fértil para problematizar temas ligados à matéria e memória, (re)contextualização da imagem como ferramenta discursiva, autoria e anonimato, realidade e ficção, entre outros temas tão usuais no campo da arte. Nomeio a série de DELETE.use - apague e use -, para fazer alusão ao saudável ato de esquecer acontecimentos, pessoas e lugares, como uma estratégia mnemônica natural, quase involuntária. Lembrar e esquecer também nos aproxima dos protocolos de trabalho característicos do campo da Tecnologia da Informação, em seus trânsitos de dados computacionais, de onde aliás, surgiu a popularidade do termo DELETE, hoje quase um verbo de alcance global. 

 

Ao retirar parte ou integralmente a figura humana de cenas que se notabilizaram pelo impacto de corpos e expressões faciais registrados fotograficamente, pergunto: o que resta para lembrar? Sem as palavras, datas, fontes e outros protocolos de arquivamento, de que forma nos conectamos às histórias, autores, personagens, e principalmente, como lidamos com o patrimônio histórico e imaterial construído pela fotografia?

 

Públicas ou privadas, nossas memórias estão impregnadas de fotografias, e como afirmava Susan Sontag, são parte do patrimônio imaterial do homem e estão guardadas nos arquivos íntimos da maioria de nós. Fazem parte da nossa noção de identidade e pertencimento sociocultural, e nos ajudam a conviver com o outro e com nós mesmos. Então, se o inimaginável arquivo mental que muitos carregam na memória pode estar repleto de imagens fotográficas em estado de latência, de que forma poderíamos partilhá-las como lugares de encontros, afeições? Como definir o estado de latência em tempos de imagens virtuais?

 

Para o espanhol Joan Fontcuberta, o sentido de latência da imagem entre a fotografia analógica e a digital é diferente. Na fotografia química as imagens latentes estariam escondidas, já na digital estariam fechadas, e completa:

 

A imagem latente se assemelha a uma imagem que existe como embrião ou semente, ou, se preferirmos, como corpo criopreservado à espera de condições favoráveis que lhe permitam voltar à vida. Mas, sobretudo na ordem do simbólico, a imagem latente constitui para a fotografia a porta para sua dimensão mágica: trata-se nem mais nem menos do primeiro estágio do contato físico que a realidade e sua representação estabelecem. (FONTCUBERTA, 2012: p.39)

 

O que ocorre em DELETE.use é justamente um movimento de abertura de arquivos. Seria como se outro arquivo estivesse encoberto pelo clique célebre inicial, e o que trago à luz seria um tipo de duplo imediato e precário frente à imagem matriz. Uma fotografia ordinária escondida entre as nuances de cor ou entre o preto e branco, que agora são vistos sem protagonistas. Troco o sangue e lágrimas das fotos originais pelas texturas do fundo das imagens. Recoloco em cena as camadas mais profundas de uma paisagem que passa a ser órfã, já que se desprendeu de sua paternidade autoral e de suas memórias humanas. E qual o risco desse ato? Ao retirar a presença humana da fotografia original, a noção cultural de Paisagem também pode ser maculada, pois para Fontcuberta a Paisagem é uma invenção humana cujo maior pretexto é a memória. Sem as celebres personagens em cenas, não há o que lembrar. 

 

Meu trabalho parte de reproduções digitais, embora originalmente a maioria das fotografias da série tenha sido produzida em suporte de base fílmica. Seleciono versões que circulam livremente na web, em tamanhos e extensões variadas. A baixa resolução das imagens que trabalho não é tomada como fator limitante, uma vez que a precariedade dos arquivos fornece pistas claras das minhas fontes de consulta e do procedimento característico de captura e uso não autorizado de imagens de terceiros. Dar visibilidade para a estética pixelizada que indica transposição de meios tecnológicos é ponto crucial na construção dos elementos discursivos do trabalho, uma vez que minhas “refotografias” não pretendem só remeter-se de forma direta às fotografias originais, e sim exibi-las sob outra perspectiva. Acredito que quanto maior for o número de imagens reconfiguradas e expostas como conjunto, mais chances há do espectador encontrar elementos visuais que o reportem ao espaço-tempo onde a matriz fotográfica foi gerada, e a partir daí se estabeleça algum tipo de conexão entre o que a foto denota e o que ela possivelmente conotaria, caso o espectador se lembre do que foi suprimido da cena. 

 

Longe de querer desrespeitar ou desmerecer as experiências vivenciadas pelos autores e personagens reais ligados a essas fotografias históricas, o que eu busco talvez seja algum tipo recarregamento para imagens latentes, um tipo de 'reloaded'. Proponho não um outro desfecho para estas imagens, mas um novo começo - ainda que improvável - confiando nas palavras de Fontcuberta quando afirma:

 

A imagem latente não é somente o esboço de um registro, é uma promessa de felicidade: uma promessa de felicidade que pulsa sem sair à superfície, sem ultrapassar a soleira da visibilidade, à espera da consumação de um clímax. (IDEM, 2012: p. 41)

 

Com o descolamento dos protagonistas históricos criados com minhas explorações fototerritoriais, restam fantasmas antiaderentes simulados pela modelagem digital. Talvez seus espectros não assombrem ninguém, e talvez esses apagamentos redimam lembranças ruins de acontecimentos passados. Da fugacidade inexpressiva da paisagem que resta, fica só aridez para (não) lembrar.

 

 

 

Flavya Mutran

Lisboa, dezembro de 2014

(texto reeditado em agosto de 2015, em Porto Alegre/RS/Brasil)

 

 

REFERÊNCIAS

FONTCUBERTA, Joan. A câmera de Pandora: a fotografia depois da fotografia. São Paulo: Editora Gustavo Gilli, 2012.

 

FOUCAULT, Michel. ‘Outros Espaços’  in Estética:  Literatura  e  Pintura,  Música  e  Cinema. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2009. (pp.411-422).